quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Cucas mediarão conflitos

Matéria do site O Povo Online de 11/02/2014 - segue link: http://www.opovo.com.br/app/opovo/cotidiano/2014/02/11/noticiasjornalcotidiano,3204863/cucas-mediarao-conflitos.shtml

Equipamento da Barra do Ceará já tem pessoal treinado para conter rixas. Ideia é formar multiplicadores nas comunidades do entorno. Cucas do Jangurussu e Mondubim já nascerão com o Núcleo de Mediação de Conflitos.

Bruno de Castro brunobrito@opovo.com.br
SARA MAIA
O núcleo de mediação já funciona no Cuca da Barra do Ceará. Funcionários são treinados para prevenir situações
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Nem só da promoção de atividades culturais e profissionalização de jovens vive o Centro Urbano de Cultura, Arte, Ciência e Esporte (Cuca) da Barra do Ceará. O descontrole da violência no bairro, há anos ocupando os primeiros lugares do ranking de assassinatos em Fortaleza, forçou a criação de um Núcleo de Mediação de Conflitos no equipamento. Espaço que também existirá nos dois Cucas a serem inaugurados este mês pelo prefeito Roberto Cláudio (Pros).

Sejam de natureza interpessoal ou territorial, especialistas ouvidos pelo O POVO acreditam que os conflitos têm reflexo direto nos elevados índices de mortes violentas registrados no Ceará nos últimos anos. Em 2013, por exemplo, foram 4.462 assassinatos, latrocínios (roubos seguidos de morte) e lesões seguidas de óbito. O cenário no Estado é de epidemia.

Com os núcleos, num primeiro momento, a Prefeitura pretende atuar nos conflitos de natureza interpessoal. Ou ainda nos territoriais com algum reflexo na rotina dos Cucas, como já ocorreu algumas vezes. “Treinamos os funcionários para prevenirmos algumas situações possíveis de antever. Esse pessoal já atua em mediações o tempo todo”, revela a supervisora de mediação de conflitos da Rede Cuca, Vita Saraiva.

Conforme ela, os embates territoriais e ligados a questões maiores como o domínio do tráfico de drogas seriam reflexo de uma política de propagação da figura do mediador pelas populações do entorno dos Cucas. Além da repressão policial e da oferta de melhores serviços públicos em educação, saúde, esporte e lazer. “A gente pretende formar multiplicadores nas comunidades. Mostrar pras pessoas que não seja só eu ou os outros funcionários os responsáveis por evitar essas brigas. Mas todo mundo. A sociedade também pode cuidar das relações”.

Ainda não há como mensurar o impacto de redução que esse trabalho teria nas estatísticas de mortes violentas. “Tem muito homicídio que poderia ser evitado se as pessoas tivessem o mínimo de diálogo. Tem morte por briga de vizinhança. Por causa de namoro. O tráfico leva mais tempo pra pacificar. Porque temos que ganhar a confiança das lideranças e mostrar outras alternativas. E isso envolve mais secretarias. Não vou dizer que a mediação, sozinha, vai ser capaz de resolver. Porque não vai”, sublinha.

Titular da Coordenadoria Especial de Políticas Públicas de Juventude, Élcio Batista pondera que, muitas vezes, até o diálogo com esses jovens é difícil de ser estabelecido por conta de um histórico de ausência do poder público. “Eles já se afastaram da política pública. Não estão mais na escola. Não acessam mais os equipamentos de saúde. E não têm qualificação profissional. Dentro dessas comunidades, a única referência deles é basicamente o traficante.”

Ele projeta melhorias para os próximos quatro anos. “Vai ser impossível resolver imediatamente. Perdeu-se muito tempo sem conseguir fazer os investimentos necessários de infraestrutura nessas áreas onde há conflitos e, de alguma forma, o envolvimento desses jovens com o crime, as drogas, as gangues etc está muito vinculado a essa perda de tempo. Os problemas foram se acumulando. Estamos pagando um preço alto. A gente está trabalhando desde o primeiro dia pra tentar melhorar as condições desses lugares. Ninguém vai resolver. Mas a gente vai apresentar melhores resultados”, frisa Élcio.

Saiba mais

O Cuca da Barra foi concebido e construído pela ex-prefeita Luizianne Lins (PT). A inauguração ocorreu em 2009. Ela prometeu outros cinco equipamentos, mas deixou o apenas outros dois em parte prontos: os Cucas do Jangurussu e do Mondubim.

O treinamento do pessoal dos Cucas do Jangurussu e Mondubim para a mediação de conflitos deve iniciar em março. Até o meio do ano, a ideia é os núcleos dos três Cucas terem espaço físico definido e atuação massificada.

Para Élcio Batista, os conflitos, sejam eles interpessoais ou territoriais, só vão diminuir/acabar quando políticas articuladas de urbanização, educação, segurança pública e saúde forem implementadas. “Mas a gestão não está preparada para agir de forma intersetorial. O processo é lento”, admite.

Serviço
Cuca da Barra do Ceará
Onde: avenida Presidente Castelo Branco, 6417, Barra do Ceará
Telefone: 3237 4688
Cuca Jangurussu e Cuca Mondubim
Inauguração: 21 de fevereiro

Resumo da série
Ontem, O POVO mapeou as áreas de Fortaleza que sofrem com disputas de gangues. Segundo a Polícia, 16 regiões apresentam conflitos graves de territorialidade. Em 2011, era “apenas” sete. Outras 17 apresentam problemas de menor expressão. Hoje, a série de reportagens mostra a aposta da Prefeitura nos Centros Urbano de Cultura, Arte, Ciência e Esporte (Cucas) para mediar pequenos embates que podem resultar em assassinatos.

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